Portuguese

Caga na Inglaterra

_Disparam, meu!

­_Pára, põe-te de joelhos, rápido!

_Disparam, meu. Tenho de fugir…

_Pára, põe-te de joelhos, rápido!

_Disparam, meu. Quem são estes, meu? Achão quem sou eu, meu…

_Pára! Disparem contra ele! Pára!

_Disparam, meu. Disparou, meu, ah… ah…. outra vez… ah…

_Morre, animal!

_Estão a matar-me, morro, meu… mas o que é isto? Fodes, caguei nas calças… estou a morrer, meu…não faz mal, filhos de mãe… voces também vão morrer. Só que eu caguei dentro de voces, todos…

Caguei na Inglaterra

A memória de Jan Charl de Menezes

SIESTA

_Desculpe,Quando é que abre o restourante? De baixo da sombra das folhas de vinhas, à volta de uma enorme mesa oval, as caras de de tomate de uma família  italiana viram-se ao mesmo tempo para mim. Até que o netinho com dois ou  três anos que está sentado ao colo do pai de familia logo deixe de chorar. Os rostos azedos de todos expressam o mesmo nojo sem toleransia. Só mais tarde vou saber, claro, o que significa a siesta de uma familia italiana, e aquele que não estiver  com a família nestas horas é, no mínimo, um animal. Agora ainda sem saber de nada, 1500 km a conduzir sem parar, estou em Italia e quero almoçar. Estou parado em frente do primeiro restourante e estou a gozar o meu primeiro contacto com os primeiros italianos.

 Estes olham para mim como se fosse um porco e estão a espera que o pai fale.

O pai nao fala. A tensão aumenta. _Não vale a pena achar que eu não possa fazer azneiras ( disparates). Vocês até que são italianos, talvez primos de Carleoni ou primas da tia de Berlusconi, mas eu sou arménio, sou de bairro de Capela  de Simo Mkhe, Khecho e Avetants, e posso fazer uma cara tão nojenta que vocês todos vão cagar.digo em arménio. A ouvir os nomes dos bons rapazes e uma língua não inglesa ou impressionados com o nojo da expressão da minha cara que impõe respecto, convidam-me a entrar, em italiano. A julgar pelas caras estupefactas, tinha acontecido algo insólito.Um estrangeiro na altura de siesta, nunca ninguem viu nada disto. Gradualmente surgem os nomes associados aos membros da família. Olho para a cara deles e reparo que os já tinha visto em várias aldeias de Arménia, e ainda um ou dois na Georgia ou no Azerbaijão. O Dom «Varuj», com um gesto  largo de mão, convida-me a sentar com eles para não ter de pôr uma nova mesa no restourante. Só mais tarde venho a saber que todos os restourantes e outros negócios se vão abrir após as  seis horas da tarde, quando as famílias já tiverem terminadas as suas  reuniões diárias, reuniões,  conselhos,  almoços jantares, ou seja, siesta. _Oh puto, traz uma cadeira! _Por que é que estás constantemente a pedir-me a mim?Não podes de vez em quando pedir ao «Gago»?-diz o «Hrandik» de Etchmiadzin. _Eh pá, se o pai diz, vai caladinho e traz a cadeira,-diz o «Gago» com um olhar maldoso para o pai e depois  para o irmão. _Cala-te, oh seu careca,- e dá uma chapada na careca. O careca grita  como um porco e toda a família começa a gritar envergonhando o «Hrandik». «Hrandik» olha para cada um da sua numerosa família. Fico espantado com a colecção de máscaras sinceras construídas pelo rapaz em pouco tempo. Lembro-me que estou no país dos artistas. Sem querer começo a abanar a cabeça e a pensar em valorizar como deve ser o perito. O Dom «Varuj» acha que isso significa «mas que puto mal criado» e dá uma chapada no pescoço de «Hendrik». O rapaz dé um salto e ao esfragar o pescoço desata a correr… _Eh pá, porque é que bateste?… _Calem-se todos…diz o pai com voz rouca. Silêncio absoluto. Vejo num instante a linda entra a escorregar.Imediatamente desvio o olhar  e tomo a decisão de nunca mais olhar. É mais uma come-corações… penso, mas fervo, porque caçou o meu olhar e conseguiu responder. Dentro de cinco minutos estamos sentados. O barulho alegre dos pratos, as brincadeiras, o riso, as crianças, as caras felizes e queridas coradas que nem um tomate até às orelhas não deixam sequer uma memória da briga há poucos minutos. _Este vinho de «Carahunj» pela primeira vez no mundo fizeram em «Shorbulakh» e quem fez foi o Sero Khanzadian,- diz algo semelhante a isto o  Dom «Varuj». _Achas? Não inventes! É um bom vinho, mas quem fez pela primeira vez foi o Vardan Mamikonian, com a Cher e Charlez Aznavur em Artsvachen, mas quando oferecemos a aldeia aos turcos perdemos a receita. E falamos assim em arménio e italiano, comemos, bebemos… Assim, ficam algum tempo, a «Ripsik», a «Haikuch»,a «tia Satik», a «tia Varsik», o «tio Carlen» e até a ultima pessoa, a contar as suas preocupações. Mesmo o pequenino diz que cresce sem gelado porque hoje ainda não comeu. Durante tudo isto comemos pasta, ravioli com nozes e espinafres  e com Dom « Varuj» engolimos um vaso de vinho… Esvaziamos o segundo vaso de vinho. Já não me lembro o que comi, mas com certeza que foram todo o tipo de fumados, churrascos, saladas, àguas, bebidas. Começam o debate sobre o noivo de «Ripsik». A família está rir-se e ela enrubesce de vergonha. A «tia Satik» pergunta-me a rir: _O que dizes, estrangeiro? _Se gosta dele, deixem-na casar! A minha opinião merece a simpatia de todos. Toda a familia foi buscar uma coisa muito importante para a conclusão da siesta. Cheio, mole, com o cerebro derretido estou sentado e seria tudo fantastico se a linda, que a tarde toda esteve sentada a meu lado, não tivesse ficado sozinha comigo. Como posso não olhar? Estamos sozinhos! Porque não olhar? Chamam-me os seios de mármore por que se veem debaixo da  camisa  por acaso desabotoada. Muito por acaso a saia puchada para cima deixa nuas as pernas cruzadas, lindissimas. O pé puxado para trás, debaixo de cadeira, o calcanhar levanto numa forma incrível e outra perna docemente acercada. _Se me queres ver melhor, depois das oito vem à Fiesta,-diz a linda inesperadamente em inglês. A família, alegre e contente, corre para trás, traz uma taça muito quente cheio não sei de que. A saia desce com um movimento hábil até ao limite de honestidade. Qualquer coisa não está bem. _Eu vou-me embora. Muito obrigado, gracias, Dom «Varuj»… _Onde vais? Ainda não comemos a «Khavurma»!? _Fica para uma outra ocasião, ainda tenho que conduzir 600km. _Onde vais? O que vais fazer? _Vou para Veneza. É uma conferência sobre Integração Europeia. Começa de manhã. _Ai é? Conferência é um negócio sério. Mas estás bébedo. Ri-se. É verdade que estou embriagado. Estou bébedo como um sem juízo e tenho pena da minha carta de condução. _Não te preocupes. Ainda é siesta, além de turistas, não há ninguem lá fora, nem mesmo polícia. Continua a rir-se e a acalmar. Está a brincar. Corajoso e a pensar bendita seja a siesta, entro no carro.Estou a andar. _Quando sair de cidade para a auto-estrada vou acelerar. Está claro, vou acelerar… Um pouco mais longe de cruzamento da frente na rua vazia estão os bófias. Como o «Inspector Lendrush», esmagado do calor e preguiçoso, prepara-se para levantar a pauzinho. Sem sucesso. Rapidamente páro, abro o vidro: _Bon giorno! Sou turista , estou perdido. Como posso encontrar… O que é que quero encontrar ?… _Como é que era o nome…  Nem sei o nome desta aldeia, o que posso inventar? O «Varuj» estava a dizer é siesta, não há polícias… Siesta… Siesta… _Como posso ir à Fiesta? _ Vai ver do seu lado direito, não dá para enganar. É a discoteca maior de Riviera. Vê-se  de todo o lado,- diz o polícia com um inglês suficiente. _Gracias! _Boa viagem e Fiesta  alegre! Sorria. Sorrio a resposta. _Hajokh, Lendruch! _O que? _Nada! É da minha língua. Quer dizer adeus. _ Ah… hajolendro! Hajolendro! Bem me escapei. Para a frente até Veneza sem parar. Do lado direito brilha no meio do escuro a Fiesta.  Já me dói a cabeça desta integração teórica, conferencial. Dentro das luzes chama-me o rosto brilhante de «Linda». …Quero lá saber de Conferência… Logo no primeiro cruzamento viro para a direita, para as luzes, para a «Linda», para a integração prática, para a Fiesta…                                                                VAHE AVETIAN                                                                                      3-26-2004, Stocholmo